O desastrado, para ser gentil, início de segundo
mandato de Dilma Rousseff, não conta, é muito óbvio, com muitos
simpatizantes. É uma proeza do caráter tecnocrata da presidenta que
ela tenha desagradado a praticamente todos nós.
Mas é exatamente
daí que sobressai um dos aspectos qualificadores das recentes
manifestações dos revoltados digitais: embora quase todos estejamos
descontentes de um modo ou de outro, apenas eleitores de Aécio Neves
resolveram expressar seu desagrado na forma de pedidos de
impeachment, renúncia ou da excrescência chamada “intervenção constitucional militar”.
As pesquisas realizadas com o público que
compareceu às ruas em março e abril de 2015, em Belo Horizonte e em
São Paulo, constataram que 81% dos manifestantes haviam sido
eleitores do tucano.
Quando lembramos que ambas as manifestações
contaram com um apoio indireto inédito da mídia – Globo News e
Band News transmitiram ao vivo durante todo o dia dos dois domingos,
cobrindo o evento; o sítio UAI, ligado aos Diários Associados,
postou, desde as duas sextas-feiras antecedentes, vídeos de Aécio
Neves “convocando” a população para comparecer aos atos etc. –
fica muito evidente que apenas os descontentes com o resultado das
eleições de 2014 entenderam que seu desagrado era suficiente para
dar continuidade ao processo eleitoral há pouco encerrado. Se isso
não constitui um comportamento autoritário, não constitui mais
nada.
Digamos de outro modo: nem todos os eleitores de
Aécio Neves saíram às ruas para reivindicar um impeachment sem
fundamentos. Porém, 81% (quatro quintos, maioria absoluta) dos
manifestantes escolheu o candidato oposicionista nas eleições de
2014. Ora, se todos estamos descontentes com o governo recém
empossado mas se apenas os eleitores de quem perdeu o pleito estão
dispostos a contestar não os rumos do governo, mas a continuidade do
próprio governo, sem provas, sem nada mais do que apenas a própria
vontade e desejos políticos, trata-se de um comportamento
inequivocamente antidemocrático, típico de quem só reconhece
resultados eleitorais que coincidam com seus próprios votos.
Há uma notável descontinuidade entre os dois
momentos recentes de manifestações de rua de massa. E não é
temporal; é, mais do que qualquer outra coisa, política. São dois
tipos muito diferentes de pessoas, aquelas que ocuparam as ruas em
2013 no tempo da Copa das Confederações, e aquelas que o fazem
agora.
Como já mencionei no post anterior, que o governo tenha sido tão diligente, em 2013, na
cooperação para a repressão policial contra os manifestantes e que
os de agora comunguem tão harmoniosamente com as mesmas forças
policiais, é outro dos fatos que ajudam a comprovar aquela
distinção.
Nas ruas, em 2013, o grosso dos manifestantes jamais
colocou em questão a legitimidade do mandato da presidenta. Jamais
reivindicou sua deposição. Mesmo os “contra tudo que aí está”
imaginavam que algo deveria ser feito por “quem ali estava”.
A pergunta faltante em todas as pesquisas com
manifestantes de 2015 seria exatamente aquela que mostraria se quem
esteve nas ruas em 2013 estava também agora em 2015. Parece-me que
os modos de existência de cada uma das manifestações respondem
isso de modo satisfatório. Todavia, um número, uma porcentagem,
viria bem a calhar.
Continua...
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