segunda-feira, 4 de maio de 2015

O Modo de Existência dos revoltados digitais (Dilma e os Revoltados Digitais, parte II


O desastrado, para ser gentil, início de segundo mandato de Dilma Rousseff, não conta, é muito óbvio, com muitos simpatizantes. É uma proeza do caráter tecnocrata da presidenta que ela tenha desagradado a praticamente todos nós.

Mas é exatamente daí que sobressai um dos aspectos qualificadores das recentes manifestações dos revoltados digitais: embora quase todos estejamos descontentes de um modo ou de outro, apenas eleitores de Aécio Neves resolveram expressar seu desagrado na forma de pedidos de impeachment, renúncia ou  da excrescência chamada “intervenção constitucional militar”.
As pesquisas realizadas com o público que compareceu às ruas em março e abril de 2015, em Belo Horizonte e em São Paulo, constataram que 81% dos manifestantes haviam sido eleitores do tucano.

Quando lembramos que ambas as manifestações contaram com um apoio indireto inédito da mídia – Globo News e Band News transmitiram ao vivo durante todo o dia dos dois domingos, cobrindo o evento; o sítio UAI, ligado aos Diários Associados, postou, desde as duas sextas-feiras antecedentes, vídeos de Aécio Neves “convocando” a população para comparecer aos atos etc. – fica muito evidente que apenas os descontentes com o resultado das eleições de 2014 entenderam que seu desagrado era suficiente para dar continuidade ao processo eleitoral há pouco encerrado. Se isso não constitui um comportamento autoritário, não constitui mais nada.

Digamos de outro modo: nem todos os eleitores de Aécio Neves saíram às ruas para reivindicar um impeachment sem fundamentos. Porém, 81% (quatro quintos, maioria absoluta) dos manifestantes escolheu o candidato oposicionista nas eleições de 2014. Ora, se todos estamos descontentes com o governo recém empossado mas se apenas os eleitores de quem perdeu o pleito estão dispostos a contestar não os rumos do governo, mas a continuidade do próprio governo, sem provas, sem nada mais do que apenas a própria vontade e desejos políticos, trata-se de um comportamento inequivocamente antidemocrático, típico de quem só reconhece resultados eleitorais que coincidam com seus próprios votos.

Há uma notável descontinuidade entre os dois momentos recentes de manifestações de rua de massa. E não é temporal; é, mais do que qualquer outra coisa, política. São dois tipos muito diferentes de pessoas, aquelas que ocuparam as ruas em 2013 no tempo da Copa das Confederações, e aquelas que o fazem agora.

Como já mencionei no post anterior, que o governo tenha sido tão diligente, em 2013, na cooperação para a repressão policial contra os manifestantes e que os de agora comunguem tão harmoniosamente com as mesmas forças policiais, é outro dos fatos que ajudam a comprovar aquela distinção.

Nas ruas, em 2013, o grosso dos manifestantes jamais colocou em questão a legitimidade do mandato da presidenta. Jamais reivindicou sua deposição. Mesmo os “contra tudo que aí está” imaginavam que algo deveria ser feito por “quem ali estava”.

A pergunta faltante em todas as pesquisas com manifestantes de 2015 seria exatamente aquela que mostraria se quem esteve nas ruas em 2013 estava também agora em 2015. Parece-me que os modos de existência de cada uma das manifestações respondem isso de modo satisfatório. Todavia, um número, uma porcentagem, viria bem a calhar.

Continua...

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