O trabalho
intelectual está, ou deveria estar,
sujeito a diversos tipos de
responsabilidade ética. E isso, seja ele jornalístico, acadêmico
ou acadêmico exercido em meio jornalístico.
Pode-se falar de responsabilidade moral, de
responsabilidade histórica, de responsabilidade política, da
responsabilidade para com o debate franco, aberto e mutuamente
respeitoso, da responsabilidade para com a verdade (em sentido muito,
muito estrito, relacionado com a não distorção de fatos
incontroversos – por exemplo, você está agora, neste momento, lendo esta frase e não há quem possa negar isso, nem mesmo
você ou eu).
Não é uma lista exaustiva das responsabilidades,
poderia ser maior. Cito estas porque, depois que li a coluna de Luiz
Felipe Pondé publicada na Folha de São Paulo de 02/09/2013, tive a
certeza de que ele violou não uma ou duas, mas todas elas.
No filme Hannah Arendt, uma aluna pergunta
à filósofa por que atribuir o caráter de crime contra a humanidade ao que aconteceu nos campos de
concentração nazistas. “Porque os judeus são humanos”, ela respondeu.
O nazismo, o fascismo e o totalitarismo realizaram-se intencionalmente como sistemas organizados para o cometimento de crimes contra a humanidade. Uma espécie de leitura ao revés do veredicto de Arendt permite compreender que, ao lidar com eles, são indispensáveis o pudor e o respeito às várias dimensões da responsabilidade ética do intelectual. Quando se avoca a memória daquele período da história da humanidade, não há nenhum espaço para a leviandade.
O nazismo, o fascismo e o totalitarismo realizaram-se intencionalmente como sistemas organizados para o cometimento de crimes contra a humanidade. Uma espécie de leitura ao revés do veredicto de Arendt permite compreender que, ao lidar com eles, são indispensáveis o pudor e o respeito às várias dimensões da responsabilidade ética do intelectual. Quando se avoca a memória daquele período da história da humanidade, não há nenhum espaço para a leviandade.
Se é verdade que o nazismo assentou-se sobre a
ideia de que o ser humano é supérfluo e que o fez colocando em
funcionamento um dispositivo tecnopolítico de banalização da
maldade, é também verdade que sua derrota instituiu um imperativo
moral correlato. Dali em diante, nem o nazismo, nem a banalização da
vida humana encerrada em suas práticas de poder, podem ser trivializados no exercício cotidiano da controvérsia intelectual ou
política. É por isso, não por qualquer outra coisa, que há leis em todo o mundo proibindo o uso da simbologia
nazista.
Em sua coluna, Pondé elaborou uma analogia entre os judeus na Alemanha nazista e os médicos brasileiros da atualidade. Fez isso apenas para ter como chamá-los de "os judeus do PT”. Podia - a despeito da absurdidade da coisa - ter se limitado a defender que os médicos são "bodes expiatórios". Mas, não. Para ele, o governo petista é equivalente ao maior e mais infame sistema político de cometimento de crimes contra a humanidade, capaz de eleger inocentes úteis políticos, oferecendo-os à imolação coletiva no altar da opinião pública dos miseráveis.
Pondé entregou-se a essa ignomínia, a esse exercício de irresponsabilidade ética intelectual, porque ignorou completamente os indissociáveis limites históricos, políticos e morais relativos ao nazismo. Duvido que os desconheça. Me parece que o fez porque faz pouco caso deles.
O ineditismo da prática nazista como que a colocou a salvo dessa estirpe de iconoclastas narcísicos. A adesão à polemização histriônica, típico da incontinência verbal da nova direita brasileira, não autoriza, nem a ele nem a ninguém, esse tipo de "dessacralização" do nazismo, dos fascismos, dos racismos e das escravizações modernas.
Pondé entregou-se a essa ignomínia, a esse exercício de irresponsabilidade ética intelectual, porque ignorou completamente os indissociáveis limites históricos, políticos e morais relativos ao nazismo. Duvido que os desconheça. Me parece que o fez porque faz pouco caso deles.
O ineditismo da prática nazista como que a colocou a salvo dessa estirpe de iconoclastas narcísicos. A adesão à polemização histriônica, típico da incontinência verbal da nova direita brasileira, não autoriza, nem a ele nem a ninguém, esse tipo de "dessacralização" do nazismo, dos fascismos, dos racismos e das escravizações modernas.
O triste é que, amparados no direito inalienável
do exercício do pensamento e da crítica, essa gente
não apenas desconhece limites. Ela celebra o fato de que não
precisa tê-los.
Querer negar-lhes a palavra é um equívoco. Eles, aliás,
adorariam. Berrariam “censura!” enquanto adicionariam auto
vitimização ao seu discurso.
Resta, unicamente, não permitir que falem sem
encontrar resistência.
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