As grandes narrativas forneceram pensamento intelectual um terreno seguro por onde caminhar, no qual os limites e as fronteiras estiveram muito bem demarcados, sempre. Direita e esquerda, progresso e conservadorismo, sempre foram categorias muito bem delimitadas (isso, não obstante os extensos textos que delas se originaram quando o objetivo era explicá-las). De algumas maneiras isso também facilitava o trabalho do pensamento quando em causa estava uma tomada de posição a respeito de um assunto sobre o qual não se tinha um conhecimento muito aprofundado. Grosso modo, os de esquerda sempre estivemos ao lado do liberalismo em política e costumes e do conservadorismo em economia; os à direita primavam pelo extremo liberalismo em economia (a santidade da propriedade privada) e um por um conservadorismo quase carola em costumes e política.
Em tempos recentes isso foi tão forte que, em alguns casos, primeiro nos informávamos sobre a qual corrente política pertencia o autor de um texto ou filme, para só aí nos posicionarmos sobre suas idéias e argumentos.
Dentro do campo de forças estipulado por esse conflito político ordenador das idéias, o antípoda das ciências sempre foi a religião. Uma e outras sempre se viram como divisoras da mesma fronteira. É claro que esse esquema não é totalmente rigoroso. A religião – especialmente as religiões cristãs – teve (tem) muitos problemas com a modificação e a modernização dos costumes. De certo modo, o conflito ainda era o mesmo, se considerada uma noção de ciências e tecnociências que se define pela construção do sistema institucionalizado de produção de conhecimento. Isso porque esse processo que, se acelerou desde o fim da Segunda Guerra Européia, trouxe para o campo da produção sistêmica de conhecimento – feito nas Universidades e chancelado em sua maioria por elas – tudo aquilo que hoje conhecemos como as ciências modernas: desde a biologia e a física até a administração e a economia. Isso sem falar na filosofia que, se não se define como uma ciência, abrigou-se muito confortavelmente (com muita justiça, diga-se de passagem) no sistema universitário institucionalizado de produção de conhecimentos.
Mas, especialmente com as biotecnologias e as novas tecnologias de processamento de informação, ruiu aquela divisão tão facilitadora. O campo de possibilidades que rapidamente se abriu com as biotecnologias não está mais unicamente inscrito na rubrica “progresso”. Atônitos, cientistas mais ingênuos ou ainda – em caso mais grave – acriticamente comprometidos com os interesses imediatos das grandes corporações, revoltam-se contra os antigos aliados à esquerda que ousam questionar a validade do discurso científico ou a proposição de limites ou regulamentações às pesquisas. Muito espertamente ignoram essas vozes questionadoras que vem da própria academia e continuam dizendo em alto e bom som que seus “verdadeiros” contendores ainda estão perfilados nas Igrejas e Templos.
Por outro lado, pensadores identificados com essa mesma esquerda que começam a perceber as implicações de curto, médio e longo prazo encerradas nas realizações das biotecnologias por exemplo vêem-se, de repente, acompanhados por alguns dos antigos “inimigos” conservadores. Quem não se sente incomodado por ver-se dividindo as mesmas idéias que defende um George Bush, por exemplo? É claro que um exame mais aprofundado vai mostrar que na maioria dos casos essa defesa é igual somente na superfície. Por exemplo, o campo de realizações das biotecnologias ou das redes de informações baseado na internet hoje radica intensamente entrelaçado aos interesses das grandes corporações. É inequívoco que um reforço da esfera pública, capaz de recuperar o papel regulador do Estado e devolver à política um conjunto de funções decisórias que hoje está na mão das grandes corporações globais não está na agenda de um conservador como Bush. Mas está na da maioria daqueles que pensam que é preciso regular, conhecer e até mesmo impedir ou desacelerar a realização de alguns tipos de pesquisas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário