sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Humana Conditio segundo Norbert Elias e o Brexit

Faz pouco, terminei a leitura de um livro pouco conhecido do Norbert Elias, escrito a propósito da celebração dos quarenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial: "Humana Conditio: consideraciones en torno a la evolucion de la humanidad".
 
Segundo ele, o recurso às guerras está inscrito quase indelevelmente na história da humanidade. Elias faz um apanhado histórico desse tipo de conflito orientado pelo desejo de hegemonia de um Estado sobre os demais e que não é o caso, aqui, de retomar. Sua intenção era a demonstração do quão arraigado está esse tipo de impulso à guerra na história da humanidade (e não se trata de uma hipérbole). De uma maneira tal que, mesmo a lembrança de todos os horrores perpetrados durante a Segunda Guerra talvez não fossem, per se, suficientes para impedir que os Estados viessem a se engajar em outro conflito de enormes proporções.
 
Naquele momento, vigia a dinâmica da Guerra Fria. Ruiria brevemente, e o modo como isso se deu não foi inteiramente previsto por Elias. Mas não é o que tenho interesse em demarcar aqui, ou seja, não o que ou onde ele errou mas, sim, o que ele percebia com tendência histórica naquele momento e que ainda é importante relembrar, exatamente porque não perdeu sentido.
 
Para ele, o espaço europeu estava repleto de Estados que teimam em valorizar seu passado glorioso. Haveria uma nostalgia latente, saudades da grandeza perdida, que não tinha sido abandonada no limbo esfumado dos séculos. Nenhum podia, sozinho, superar o poderio das grandes potências – EUA e URSS. Ainda assim, a memória histórica coletiva de superioridades que se manifestavam na tendência de os Estados tentarem dominarem-se uns aos outros por meio das guerras, funcionava como uma sombra permanentemente projetada sobre o espaço comum europeu. O medo da aniquilação ou, no mínimo, de uma dramática diminuição das condições de habitabilidade da Terra, que adviria de uma hipotética 3a Guerra travada com as novas armas (então, as armas nucleares) não demonstrara capacidade, por si só, de evitar a irrupção do conflito.
 
Ao fim do ensaio, Elias lança-se, então, a comentar a situação das duas Alemanhas, a República Federal da Alemanha (RFA) e a República Democrática da Alemanha (RDA). Segundo ele, embora permanecesse a divisão ideológica orientava a cisão, era de suma importância perceber que estava em curso, na RDA, a elaboração de uma espécie de consciência de “tradição de humanidade”. Elias afirmava que
no será ciertamente un obstáculo para semejante acercamiento que la República Federal haga lo mismo que ha hecho hace tiempo la República Democrática: considerarse a sí misma un Estado alemán con su cultura y su tradición propias y al mismo tiempo con la antigua tradición común alemana. Entonces quizá se comprendería mejor la importancia que tiene en semejante Estado el desarrollo de una cultura propia, el cultivo de la creatividad individual y, como he dicho, de la humanidad, así como, entre otras cosas, el desarrollo de actitudes más amistosas hacia otros grupos diferentes en el propio país y en otros países.
Elias acreditava em um futuro no qual a tendência histórica para a superação de conflitos que pareçam irremediáveis senão com o recurso às guerras, pudesse ser substituída pelo fortalecimento, então na RFA, de uma
 
convicción: he aquí un nuevo Estado alemán, un estado más humano, cuyos miembros están capacitados para establecer un vínculo de unión con el espíritu de grupo de los Estados europeos. Si esta convicción se fortalece y con ella el sentimiento de la propia capacidad de progreso, no sólo en terreno económico, sino también en todos los demás sectores de la convivencia humana, será más fácil, a mi juicio, que las nuevas generaciones de la República Federal, cuando contesten en el extranjero a preguntas sobre Hitler, puedan decir con cierta serenidad: “¿Hitler?. Sí, es cierto, sucedió una vez. Pero ahora somos diferentes.”
 
Com todos os defeitos possíveis apontáveis sobre a União Europeia – o fato de que se acreditou demasiadamente no efeito unificador e pacificador apenas, ou principalmente, a partir da unificação econômica – o que a aprovação do Brexit mostrou, hoje, foi a derrota – temporária, espero – dessa esperança em uma experiência de humanidade.
 
O nacionalismo xenófobo de direita (e, não nos enganemos, há nacionalismo tosco e xenófobo em vários grupos de esquerda) continua a querer substituir o ideal humanista por um embolorado orgulho baseado na crença em superioridades natas, sejam elas de natureza biológica ou histórica.
 
O ovo fascista já saiu da cloaca da serpente. Se permitiremos que venha a eclodir novamente, passou a ser o nosso problema.

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