segunda-feira, 30 de maio de 2016

Do Drone ao Impeachment


O que segue talvez coubesse melhor em um artigo acadêmico. Mas fiquei especialmente atordoado e, desta maneira, o sentido de urgência substituiu o princípio da prudência.
Estou lendo o livro A Teoria do Drone. Trata-se, em resumo, de compreender, sob uma perspectiva humanista, as implicações do uso do drone como arma e seus diversos desdobramentos.
A certa altura do texto, o autor trata de como alguns filósofos morais batalham pela redefinição, ou manutenção dos princípios da guerra justa. O cerne do capítulo em questão é demonstrar de que maneiras o drone armado seria mais “humanitário” do que as armas precedentes. Não retomarei o debate que está no livro. Todavia, ele cita Bradley Strawser como um filósofo proeminente nesse campo. Alguém empenhado em demonstrar a superioridade moral do uso dos drones. Li o nome e me inquietei. Já havia visto em algum lugar. Corri a um texto meu que foi publicado ano passado – sobre filosofia das tecnociências – e lá estava o nome. Strawser esteve no mesmo colóquio sobre filosofia da tecnologia em que eu estive, em 2010, na cidade de Buenos Aires.
Ele apresentou um trabalho breve sobre como são os debates para a conversão (e também a criação) de regras morais em algoritmos que equipam os carros autômatos autônomos que a Google testa na Califórnia.
Pouco tempo depois, ficamos sabendo do envolvimento direto da Google (hoje Alphabet) na indústria bélica, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento de robots de campo de batalha.
Naquele momento, o paper de Strawser chamou-me a atenção pelas potenciais implicações dissemináveis desde o veículo urbano autônomo para os diversos dispositivos militares. Enterrados que estamos todos pelo volume imenso de textos e trabalhos acadêmicos, não me interessei por pesquisar melhor as publicações do autor.
Hoje, atônito, descubro que, na verdade, o percurso era o inverso. Não que seja novidade que tecnologias militares sejam mais tarde adotadas no nosso cotidiano. Mas me surpreendeu que ali, ao meu lado (lembro de ter trocado algumas palavras com o autor do paper e de ter feito algumas perguntas ao final da apresentação), estivesse alguém que faz parte do corpo ativo de propaganda e convencimento político, filosófico e acadêmico destinado a nos impedir, a todos, que percebamos a verdadeira amplitude da transformação tecnopolítica a que estamos todos submetidos, de uma forma ou de outra.
Entre o uso de um aparelho Apple, que violenta substancialmente (em troca da facilidade e da rapidez do uso) nossa autonomia de usuários e o uso dos aparelhos “livres” da Google, que nos transforma em produtores incessantes de informação bruta (em troca de facilidades e instantaneidades) o fato é que no campo das novas tecnologias não há margem. Ninguém está à margem. Tanto a resistência individual – do tipo da desobediência civil ao modo de Thoreau – como a resistência coletiva – do tipo que aprendemos com as greves e similares no decorrer dos últimos duzentos anos – inexistem porque fomos subtraídos, e voluntariamente, a todas elas.
E a mobilização incessante de todos os sentidos para que a desatenção não seja o que nos fragilize ou impeça a capacidade de resistência tem sido exatamente ela que nos impede de prosseguir resistindo eficazmente. Todos dizemos que a revista Veja é um veículo de imprensa zumbi, morto-vivo semanal. Muitos dizem que ela é assim porque foi incapaz de adaptar-se “aos novos tempos”. Em parte, isto é correto. Porém, ao converter-se em foco originário incessante de inverdades e distorções, ela debilita nossa capacidade de produzir resistência, na medida em que nos obriga mais a reagir do que a agir.
Do drone arma de guerra ao impeachment, não há de fato tanta diferença. E isto é desesperador.
PS: este é um texto cru, escrito de primeira, sem correções, sob o impacto da "descoberta" de que dialoguei com Bradley Strawser. Permito-me o direito de ir adicionando ou corrigindo, nele, algumas coisas, no futuro.

Um comentário:

Hélio Nunes disse...

Roger, os aparelhos GoogLe não são livres de forma alguma. Há uma camada neles, mas sobre ela, nada é. O movimento software livre no qual milito há uns bons 20 anos é sim resistência, coletiva e individual, pois dá ao usuário todas as escolhas, incluindo a total privacidade. Em inglês diz-se que não é free as beer, mas free de freedom. Além disso, essa liberdade não é só de escolha, mas também criativa. Então há sim uma margem.