sábado, 29 de agosto de 2015

Lua Cheia


Às primeiras páginas do belíssimo Far From the Tree: parents, children and the search for identity, Andrew Solomon reflete sobre a ambiguidade entre o modo como somos filhos de nossos pais e o modo como somos pais de nossos filhos. Segundo ele, nosso orgulho em diferenciar-se de nossos pais contrasta com a nossa tristeza ao perceber o quão diferentes de nós vão ficando os nossos filhos.
Involuntariamente ou não, impomos nossa visão de mundo aos nossos filhos. Às vezes, podemos chamar isso de educação; os filhos, em outros casos, preferem chamar de tirania paterna. Às vezes, isso chega a extremos, com os pais que forjam mentalmente todo o futuro dos seus filhos. Projetando neles os seus ideais de vida, esse tipo de pai restringe, quando não elimina, as possibilidades de escolha de seus filhos. Quando é assim, todo o cotidiano dos filhos é ocupado pelos anseios paternos.
No meu primeiro emprego, aos treze anos, conheci um pai assim. Para ele, seu filho estava predestinado a ser um craque de futebol. Diariamente, os companheiros de trabalho eram atualizados sobre o andamento do projeto. Jamais soube como o projeto foi concluído, mas sempre que me lembro disso sinto um dó enorme daquela criança.
Eu, um dos melhores pernas-de-pau do circuito de arenas de terra batida do meu bairro, estranhava o cultivo daquela habilidade. Porque nasci tão esplendidamente bom em ser ruim de bola, aprender a jogar era uma ideia exótica. Nunca quis ser um bom jogador, e poucas vezes me senti mal por isso.
Não obstante, perto de seus sete anos, matriculei o Lucas em uma escolinha de futebol. Durou pouco. Em uma das manhãs, quando fui buscá-lo, encontrei-o cabisbaixo. Herdeiro da inabilidade paterna no domínio da bola, passou quase todo o tempo da aula sentado, colocado “na reserva” por seu professor.
Reclamei, claro. Sem sucesso, óbvio. Porque o que dava sentido àquele ambiente era uma competitividade extremada. E o interesse pelo futebol sucumbiu juntamente com o abandono de seu aprendizado. Nem acompanhar a preferência atleticana do pai e do avô lhe pareceu razoável. Primeiro, dizia que não torcia para time nenhum. Adolescente, em uma escolha de política familiar e acadêmica, decidiu ser americano. E, vejam a gravidade da coisa: em Minas Gerais, ser torcedor do Atlético Mineiro não é uma entre várias opções, é a única. Aqui, a expressão “torcedor atleticano” é um pleonasmo. E eu tenho certeza que aquela primeira “escolhinha” foi determinada lá no ambiente hostil e competitivo da escolinha.
Os pais que treinam, literalmente, seus filhos para serem músicos, jogadores de qualquer coisa, atores, misses etc., são, ou deveriam ser, casos limítrofes. Não vejo problemas quando é própria criança quem manifesta esse tipo de interesse. Todavia, submeter qualquer criança aos delírios de pais obcecados constitui uma violência psíquica inaceitável.
Hoje, esse processo está cada vez mais assustador. Quem tem familiaridade com a sociologia conhece, de Max Weber, a asserção sobre o paradoxo da jaula de ferro da modernidade, a indesejada, mas inafastável, burocratização do mundo da vida. Weber se referia ao Estado moderno. Mas eu já vi gurus da autoajuda empresarial - uma das facetas mais degeneradas desse estilo “literário” - pregarem “a invasão do ambiente familiar pelos valores da empresa”. Outros, defendem ensinar às crianças as categorias da “gestão”, chegando ao rematado absurdo de se prescrever o aprendizado do empreendedorismo (seja lá o que isso for) já nos jardins de infância.
Fique atento, se a jaula de ferro weberiana instalou-se em seu ambiente familiar, talvez tenha chegado o momento em que você, como pai, deva institucionalizar as relações paterno filiais. Conduza-as a um novo patamar: providencie a emissão da Carteira de Trabalho de seu filho; assine-a você mesmo e, para que ele aprenda cedo o “valor do dinheiro”, remunere-o com um salário bem baixo. Para fins morais e pedagógicos, um salário mínimo será suficiente.
Mas, se seu filho teve a sorte de não estar sujeito a este tipo de pai individual ou socialmente frustrado, ainda resta todo o processo de socialização, que é em boa parte coordenado pelos pais. Digo coordenado, porque a criança é uma máquina perceptívora, uma consumidora voraz de percepções, não importa de onde venham. Mentalmente alojadas, lado a lado e sem relevo, só mais tarde acontecerão as valorações, a atribuição dos pesos, a reunião das percepções em categorias homogêneas ou heterogêneas e sua distribuição ao longo de uma cadeia de pertinências, contingências e contradições.
Os pais somos relevantes nesse processo; porém, dificilmente desempenhamos o papel determinante. Porque nossos filhos “nos percebem” incessantemente, não temos como escolher as características que vemos boas em nós, escamoteando aquilo de que nos envergonhamos. Como diz o Salomon, que abriu esta coluna, nós como filhos não apenas nos diferenciamos de nossos pais, como expressamos certo orgulho em ser assim. Nossos exemplos involuntários são percebidos tanto quanto os que oferecemos intencionalmente. E nem todos são bons. Eu acho que falhei no caso do consumo de drogas lícitas: permiti que meu filho me observasse consumindo doses intoxicantes de televisão e doses menos abundantes de álcool.
Há valores que gostaríamos sempre que nossos filhos conservassem. Meu sentimento pessoal, por exemplo, é que o bem-estar de meu filho não tem preço. Que tudo quanto é possível fazer coexiste com a obrigação de ir além. Mas eu gostaria que isso se conservasse nele, já adulto, de um modo um pouco diferente (bem, ele já é quase um adulto - aliás, uma ótima receita para irritar seu filho pós-adolescente é continuar a dizer que ele é adolescente por algum tempo; eu disse irritar? Perdão pelo erro; não é irritante, é pedagógico). Retomando, eu gostaria que a minha predisposição em não medir esforços em benefício de meu filho se manifestasse na personalidade adulta dele na forma de uma pessoa que também não tenha preço, isto é, que não se venda para além do que já nos é exigido em uma sociedade em que todos alugamos nossos corpos a outrem para garantir nossa sobrevivência.
Mas há exemplos menos pretensiosos. Um deles em especial, embora não planejado, persistiu desde a infância até hoje. Notei faz pouco tempo, uns quatro, cinco anos. No começo da noite, Lucas chega em casa e pergunta: viu a lua cheia hoje? E eu que, muito cedo e muito despretensiosamente, sempre o chamava para contemplar as noites de lua cheia, constatei que esse prazer banal, que eu nunca vi como um exemplo a ser dado ou seguido, havia se convertido exatamente nisso.
Saber desligar-se de tudo por breves momentos, apenas para contemplar a lua cheia ou descobrir e ouvir boas músicas (dias atrás, me chamou no Facebook para dizer: “esse tal de Chet Baker é bom demais”) deve ser, imagino eu, um dos melhores exemplos que qualquer um de nós pode deixar, como pai, ou herdar, como filho.
Há, claro, outras coisas tão importantes quanto imponentes: a correção do caráter ou o respeito por todas as formas de alteridade. Mas isso a gente “ensina”, isto é, faz propositadamente. Nisso, concorremos com o resto do mundo e sabemos: nem sempre ganharemos.
Mas nas coisas muito simples, é diferente. É uma banalidade, o ato de contemplar a lua cheia. No universo dos exemplos morais imponentes e pomposos, ele sequer seria listado. Todavia, penso que cultivando esse tipo de hábito pueril, mas significativo, contribuímos para tornar melhores os nossos filhos e o mundo que em breve será deles como herança.

Talvez o futuro me desminta – e não escrevo isso pensando em meu filho – mas eu acredito que pessoas capazes de contemplar hedonisticamente um plenilúnio, dificilmente serão pessoas ruins. Eu creio que o melhor que já deixei a esse mundo, tão hostil, tão inóspito, é o filho que gosta de parar para ver a lua cheia. E ele, muito provavelmente, quererá ensinar isso a seus filhos, se e quando os tiver.

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