Às primeiras páginas do belíssimo
Far From the Tree: parents, children and the search for identity,
Andrew Solomon reflete sobre a ambiguidade entre o
modo como somos filhos de nossos pais e o modo como somos pais de
nossos filhos. Segundo ele, nosso orgulho em diferenciar-se de
nossos pais contrasta com a nossa tristeza ao perceber o quão
diferentes de nós vão ficando os nossos filhos.
Involuntariamente ou não, impomos
nossa visão de mundo aos nossos filhos. Às vezes, podemos chamar
isso de educação; os filhos, em outros casos, preferem chamar de
tirania paterna. Às vezes, isso chega a extremos, com os pais que
forjam mentalmente todo o futuro dos seus filhos. Projetando neles os
seus ideais de vida, esse tipo de pai restringe, quando não elimina,
as possibilidades de escolha de seus filhos. Quando é assim, todo o
cotidiano dos filhos é ocupado pelos anseios paternos.
No meu primeiro emprego, aos treze
anos, conheci um pai assim. Para ele, seu filho estava predestinado a
ser um craque de futebol. Diariamente, os companheiros de trabalho
eram atualizados sobre o andamento do projeto. Jamais soube como o
projeto foi concluído, mas sempre que me lembro disso sinto um dó
enorme daquela criança.
Eu, um dos melhores pernas-de-pau do
circuito de arenas de terra batida do meu bairro, estranhava o
cultivo daquela habilidade. Porque nasci tão esplendidamente bom em
ser ruim de bola, aprender a jogar era uma ideia exótica. Nunca quis
ser um bom jogador, e poucas vezes me senti mal por isso.
Não obstante, perto de seus sete
anos, matriculei o Lucas em uma escolinha de futebol. Durou pouco. Em
uma das manhãs, quando fui buscá-lo, encontrei-o cabisbaixo.
Herdeiro da inabilidade paterna no domínio da bola, passou quase
todo o tempo da aula sentado, colocado “na reserva” por seu
professor.
Reclamei, claro. Sem sucesso, óbvio.
Porque o que dava sentido àquele ambiente era uma competitividade
extremada. E o interesse pelo futebol sucumbiu juntamente com o
abandono de seu aprendizado. Nem acompanhar a preferência atleticana
do pai e do avô lhe pareceu razoável. Primeiro, dizia que não
torcia para time nenhum. Adolescente, em uma escolha de política
familiar e acadêmica, decidiu ser americano. E, vejam a gravidade da
coisa: em Minas Gerais, ser torcedor do Atlético Mineiro não é uma
entre várias opções, é a única. Aqui, a expressão “torcedor
atleticano” é um pleonasmo. E eu tenho certeza que aquela primeira
“escolhinha” foi determinada lá no ambiente hostil e competitivo
da escolinha.
Os pais que treinam, literalmente,
seus filhos para serem músicos, jogadores de qualquer coisa, atores,
misses etc., são, ou deveriam ser, casos limítrofes. Não vejo
problemas quando é própria criança quem manifesta esse tipo de
interesse. Todavia, submeter qualquer criança aos delírios de pais
obcecados constitui uma violência psíquica inaceitável.
Hoje, esse processo está cada vez
mais assustador. Quem tem familiaridade com a sociologia conhece, de
Max Weber, a asserção sobre o paradoxo da jaula de ferro da
modernidade, a indesejada, mas inafastável, burocratização do
mundo da vida. Weber se referia ao Estado moderno. Mas eu já vi
gurus da autoajuda empresarial - uma das facetas mais degeneradas
desse estilo “literário” - pregarem “a invasão do ambiente
familiar pelos valores da empresa”. Outros, defendem ensinar às
crianças as categorias da “gestão”, chegando ao rematado
absurdo de se prescrever o aprendizado do empreendedorismo (seja lá
o que isso for) já nos jardins de infância.
Fique atento, se a jaula de ferro
weberiana instalou-se em seu ambiente familiar, talvez tenha chegado
o momento em que você, como pai, deva institucionalizar as relações
paterno filiais. Conduza-as a um novo patamar: providencie a emissão
da Carteira de Trabalho de seu filho; assine-a você mesmo e, para
que ele aprenda cedo o “valor do dinheiro”, remunere-o com um
salário bem baixo. Para fins morais e pedagógicos, um salário
mínimo será suficiente.
Mas, se seu filho teve a sorte de não
estar sujeito a este tipo de pai individual ou socialmente frustrado,
ainda resta todo o processo de socialização, que é em boa parte
coordenado pelos pais. Digo coordenado, porque a criança é uma
máquina perceptívora, uma consumidora voraz de percepções, não
importa de onde venham. Mentalmente alojadas, lado a lado e sem
relevo, só mais tarde acontecerão as valorações, a atribuição
dos pesos, a reunião das percepções em categorias homogêneas ou
heterogêneas e sua distribuição ao longo de uma cadeia de
pertinências, contingências e contradições.
Os pais somos relevantes nesse
processo; porém, dificilmente desempenhamos o papel determinante.
Porque nossos filhos “nos percebem” incessantemente, não temos
como escolher as características que vemos boas em nós,
escamoteando aquilo de que nos envergonhamos. Como diz o Salomon, que
abriu esta coluna, nós como filhos não apenas nos diferenciamos de
nossos pais, como expressamos certo orgulho em ser assim. Nossos
exemplos involuntários são percebidos tanto quanto os que
oferecemos intencionalmente. E nem todos são bons. Eu acho que
falhei no caso do consumo de drogas lícitas: permiti que meu filho
me observasse consumindo doses intoxicantes de televisão e doses
menos abundantes de álcool.
Há valores que gostaríamos sempre
que nossos filhos conservassem. Meu sentimento pessoal, por exemplo,
é que o bem-estar de meu filho não tem preço. Que tudo quanto é
possível fazer coexiste com a obrigação de ir além. Mas eu
gostaria que isso se conservasse nele, já adulto, de um modo um
pouco diferente (bem, ele já é quase um adulto - aliás, uma ótima
receita para irritar seu filho pós-adolescente é continuar a dizer
que ele é adolescente por algum tempo; eu disse irritar? Perdão
pelo erro; não é irritante, é pedagógico). Retomando, eu gostaria
que a minha predisposição em não medir esforços em benefício de
meu filho se manifestasse na personalidade adulta dele na forma de
uma pessoa que também não tenha preço, isto é, que não se venda
para além do que já nos é exigido em uma sociedade em que todos
alugamos nossos corpos a outrem para garantir nossa sobrevivência.
Mas há exemplos menos pretensiosos.
Um deles em especial, embora não planejado, persistiu desde a
infância até hoje. Notei faz pouco tempo, uns quatro, cinco anos.
No começo da noite, Lucas chega em casa e pergunta: viu a lua cheia
hoje? E eu que, muito cedo e muito despretensiosamente, sempre o
chamava para contemplar as noites de lua cheia, constatei que esse
prazer banal, que eu nunca vi como um exemplo a ser dado ou seguido,
havia se convertido exatamente nisso.
Saber desligar-se de tudo por breves
momentos, apenas para contemplar a lua cheia ou descobrir e ouvir
boas músicas (dias atrás, me chamou no Facebook para dizer: “esse
tal de Chet Baker é bom demais”) deve ser, imagino eu, um dos
melhores exemplos que qualquer um de nós pode deixar, como pai, ou
herdar, como filho.
Há, claro, outras coisas tão
importantes quanto imponentes: a correção do caráter ou o respeito
por todas as formas de alteridade. Mas isso a gente “ensina”,
isto é, faz propositadamente. Nisso, concorremos com o resto do
mundo e sabemos: nem sempre ganharemos.
Mas nas coisas muito simples, é
diferente. É uma banalidade, o ato de contemplar a lua cheia. No
universo dos exemplos morais imponentes e pomposos, ele sequer seria
listado. Todavia, penso que cultivando esse tipo de hábito pueril,
mas significativo, contribuímos para tornar melhores os nossos
filhos e o mundo que em breve será deles como herança.
Talvez o futuro me desminta – e não
escrevo isso pensando em meu filho – mas eu acredito que pessoas
capazes de contemplar hedonisticamente um plenilúnio, dificilmente
serão pessoas ruins. Eu creio que o melhor que já deixei a esse
mundo, tão hostil, tão inóspito, é o filho que gosta de parar
para ver a lua cheia. E ele, muito provavelmente, quererá ensinar
isso a seus filhos, se e quando os tiver.
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