No romance Eugenia Grandet, Balzac afirmou que
vivia “numa época em que o tempo falta aos acontecimentos”. A
crítica balzaquiana era dirigida à “soberba literatura de Paris”
que queria encontrar os dramas “já prontos”. Não sei se esse
vaticínio era verdadeiro para o século XIX mas, para o século XXI,
ele é definitivo. Nos tempos da internet, da informatividade
instantânea, o tempo é subtraído de tudo. A ânsia por explicar,
por opinar, aboliu o tempo necessário para a compreensão. Por mais
falho que fosse, o ideal da informação como substância primária
para a formação dos juízos, e o intervalo de tempo que os
separava, fazia com que juízos muito apressados fossem vistos com
desconfiança. Às vezes, os sentidos dos acontecimentos são dados
por seus desfechos. Saber quando chegam é o problema.
Em 2013, houve uma afluência de pessoas às ruas,
manifestando-se de maneira extremamente espontânea durante o período
da Copa das Confederações da FIFA. Naquele momento, o acontecimento
“sem tempo” foi sucedido por uma batalha intelectual pelos seus
significados. Quem ia às ruas? O que queriam? Estavam à esquerda ou
à direita do governo? Habituados aos movimentos populares das
cartilhas históricas, muitos intérpretes mostravam perplexidade
face à indeterminação das pautas ou à falta de lideranças. Houve quem, agora, em 2015, enxergasse uma continuidade entre as manifestações de junho de 2013 e as mais recentes, dos revoltados digitais. Predominou, contudo, a tendência de sequer comparar ambos os momentos políticos.
Em 2013, a reação do Estado e a reação do governo não coincidiram todo o tempo, e isso apenas talvez bastasse para
mostrar que tipo de movimento abarrotava as ruas. As estruturas do Estado democrático de direito
brasileiro, reagiram como de hábito nos momentos de crise que oferecem risco iminente ao status quo: as polícias, correram à defesa dos
patrimônios, sobretudo o patrimônio privado representado pela Copa
da FIFA.
Nenhum direito é absoluto no Estado democrático moderno, a
afirmação de um sempre delimitando os limites do outro. É assim
com o direito à propriedade e com o direito de ir e vir mais os de
manifestação e de liberdade de expressão. A equalização e o
balanço de todas essas dimensões dos direitos individuais e
coletivos é missão das diversas instâncias e instituições do
Estado, das polícias ao Poder Judiciário. Na teoria, claro. Na prática, no Brasil, o direito
individual à propriedade privada e a defesa dos patrimônios
privados antecedem os demais, e as Polícias Militares agem em
consonância com essa regra implícita de nosso ordenamento político
e social.
De seu lado, o governo, sobretudo o governo federal, demorou a
entender que “as ruas” falavam com ele. Mesmo tardia, a articulação das
propostas oferecidas com a intenção de arrefecer os ânimos e debelar a crise
mostrou que o que estava em questão eram as estruturas arraigadas do funcionamento
da sociedade. Estas, em grande parte, permaneceram intocadas, fossem quais fossem as virtudes dos governos petistas. E, pior ainda, pareceram ser como que reafirmadas no conjunto de privilégios
oferecidos à FIFA para a realização de seus eventos comerciais.
O status quo reagiu como sempre: as inéditas propostas de reforma
política, os ousados programas de infraestrutura urbana etc.,
ficaram no papel face à reação dos partidos políticos e de outras
organizações da sociedade civil. Os manifestantes mais renitentes
foram, e continuam, sendo perseguidos pelas estruturas do Estado com
a conivência do governo.
Talvez, tudo isso já estivesse muito claro em
2013. Mas nunca esteve mais nítido com as
manifestações de 2015 e a emergência dos “revoltados digitais”.
Pensar a reação do Estado e do governo a estes, é muito instrutivo
para compreender tanto 2013 como 2015. É possível distinguir mutuamente tanto o traço autoritário dos revoltados digitais como o progressismo e o
apego aos ideais de uma sociedade menos desigual e mais democrática,
que levaram às multidões às ruas em 2013.
De fato, nunca foram
apenas vinte centavos.
Continua...
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