terça-feira, 28 de abril de 2015

Dilma e os revoltados digitais (I)


No romance Eugenia Grandet, Balzac afirmou que vivia “numa época em que o tempo falta aos acontecimentos”. A crítica balzaquiana era dirigida à “soberba literatura de Paris” que queria encontrar os dramas “já prontos”. Não sei se esse vaticínio era verdadeiro para o século XIX mas, para o século XXI, ele é definitivo. Nos tempos da internet, da informatividade instantânea, o tempo é subtraído de tudo. A ânsia por explicar, por opinar, aboliu o tempo necessário para a compreensão. Por mais falho que fosse, o ideal da informação como substância primária para a formação dos juízos, e o intervalo de tempo que os separava, fazia com que juízos muito apressados fossem vistos com desconfiança. Às vezes, os sentidos dos acontecimentos são dados por seus desfechos. Saber quando chegam é o problema.
Em 2013, houve uma afluência de pessoas às ruas, manifestando-se de maneira extremamente espontânea durante o período da Copa das Confederações da FIFA. Naquele momento, o acontecimento “sem tempo” foi sucedido por uma batalha intelectual pelos seus significados. Quem ia às ruas? O que queriam? Estavam à esquerda ou à direita do governo? Habituados aos movimentos populares das cartilhas históricas, muitos intérpretes mostravam perplexidade face à indeterminação das pautas ou à falta de lideranças. Houve quem, agora, em 2015, enxergasse uma continuidade entre as manifestações de junho de 2013 e as mais recentes, dos revoltados digitais. Predominou, contudo, a tendência de sequer comparar ambos os momentos políticos.
Em 2013, a reação do Estado e a reação do governo não coincidiram todo o tempo, e isso apenas talvez bastasse para mostrar que tipo de movimento abarrotava as ruas. As estruturas do Estado democrático de direito brasileiro, reagiram como de hábito nos momentos de crise que oferecem risco iminente ao status quo: as polícias, correram à defesa dos patrimônios, sobretudo o patrimônio privado representado pela Copa da FIFA.
Nenhum direito é absoluto no Estado democrático moderno, a afirmação de um sempre delimitando os limites do outro. É assim com o direito à propriedade e com o direito de ir e vir mais os de manifestação e de liberdade de expressão. A equalização e o balanço de todas essas dimensões dos direitos individuais e coletivos é missão das diversas instâncias e instituições do Estado, das polícias ao Poder Judiciário. Na teoria, claro. Na prática, no Brasil, o direito individual à propriedade privada e a defesa dos patrimônios privados antecedem os demais, e as Polícias Militares agem em consonância com essa regra implícita de nosso ordenamento político e social.
De seu lado, o governo, sobretudo o governo federal, demorou a entender que “as ruas” falavam com ele. Mesmo tardia, a articulação das propostas oferecidas com a intenção de arrefecer os ânimos e debelar a crise mostrou que o que estava em questão eram as estruturas arraigadas do funcionamento da sociedade. Estas, em grande parte, permaneceram intocadas, fossem quais fossem as virtudes dos governos petistas. E, pior ainda, pareceram ser como que reafirmadas no conjunto de privilégios oferecidos à FIFA para a realização de seus eventos comerciais.
O status quo reagiu como sempre: as inéditas propostas de reforma política, os ousados programas de infraestrutura urbana etc., ficaram no papel face à reação dos partidos políticos e de outras organizações da sociedade civil. Os manifestantes mais renitentes foram, e continuam, sendo perseguidos pelas estruturas do Estado com a conivência do governo.
Talvez, tudo isso já estivesse muito claro em 2013. Mas nunca esteve mais nítido com as manifestações de 2015 e a emergência dos “revoltados digitais”. Pensar a reação do Estado e do governo a estes, é muito instrutivo para compreender tanto 2013 como 2015. É possível distinguir mutuamente tanto o traço autoritário dos revoltados digitais como o progressismo e o apego aos ideais de uma sociedade menos desigual e mais democrática, que levaram às multidões às ruas em 2013.
De fato, nunca foram apenas vinte centavos.
Continua...

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