O que escrevo a seguir é um pouco para mim mesmo, um pouco para meus amigos que são capazes de compreender um argumento e entrar em uma discussão de espírito desarmado. Por isso, tanto faz que sejam petistas ou tucanos, dilmistas ou aecistas, de esquerda ou direita. Para certas coisas, essa régua ideológica não mede nem divide o mundo.
Se há algo que esses grandes momentos de comoção ou mobilização conseguem revelar é uma parte do caráter profundo das pessoas. Já vi ou li petistas profundamente preocupados com a própria imagem pessoal, utilizando-se da campanha política para “veiculá-la”, a própria imagem, melhor. Do mesmo modo, descobri personalidades obtusas, beirando a idiotia, imbecilóides mesmo – algumas delas portadoras do título acadêmico de doutor – incapazes até de compreender um argumento para começar a discuti-lo. Porque desprovidas da capacidade de empatia social terminam sendo uma lamentável e patética soma de burrice com egoísmo.
Um escritor que conheço há pouco tempo, mas já admiro bastante, disse outro dia que o mundo vai cada vez mais na direção de uma sociedade mais livre, mais tolerante. Segue voltado para, e orientado pelo, progresso social.
Isso fica evidente porque as novas pautas, as novas reivindicações ganham cada vez mais espaço, mais visibilidade e, acima de tudo, legitimidade. É daí que vem o direito às cotas; o direito à renda mínima; o direito à própria sexualidade e ao próprio corpo.
Por outro lado é o mesmo progresso social que faz com que o tipo de posicionamento representado por gente como bolsonaros, fidelix e felicianos torne-se anacrônico. Se dizer que alguma coisa está “à frente do seu tempo” não passa de imbecilidade (apenas porque é impossível), o contrário não é verdadeiro: muita gente ainda quer viver no passado, retroceder a mentalidades superadas. Essas gentes retrógradas ficarão para trás. Mas o sofrimento real que causam, hoje, nos outros é real, muitas vezes indelével, e precisa ser combatido.
Escrevo tudo isso pensando no PT. Se há algo que o PT não é e não tem é a pureza política, uma imaculada história de acertos e só acertos. Não. O somatório de erros é grande, descomunal.
Ao contrário do que pode parecer, os erros não são, por exemplo, aliar-se a tipos como Katia Abreu, ou Fernando Collor, em nome da governabilidade. O erro foi não ter posto essa gente, com tudo de egoísta e interesseiro que ela é e representa, a serviço da reforma política, por exemplo. O PT deveria tê-los colocado em uma posição na qual o futuro deles seria aniquilado exatamente em virtude do egoísmo que lhes permite sobreviver no presente.
O mesmo vale para o modo como o PT lidou com a mídia. Essa avalanche de mentiras, deturpações etc. que agora vitimam o PT testemunham isso. E eu sei, não sou o primeiro a apontar isso. Uma reforma da mídia, sua democratização, é urgente, muitos de nós, muitos mesmo, alertaram aos ministros petistas e à própria Presidenta sobre essa necessidade. É claro, há gente dentro do PT – Paulo Bernardo, José Eduardo Cardozo – que gosta da mídia tal com ela é. Mas são minoria, seja dentro do Partido seja dentre os que são simpatizantes do PT.
A lista poderia aumentar e o modo como os governos petistas não enfrentaram os diversos corporativismos são bons exemplos: desde o corporativismo médico (e não, ressalte-se, os médicos) até o corporativismo jurídico (e não, ressalte-se, os trabalhadores do judiciário) entre outros.
Mas é preciso reconhecer o que colocou o PT nesse lugar em que se encontra agora, em 2014, à beira de conquistar seu quarto mandato presidencial. Com todos os erros, é obrigatório lembrar que ele teve logo de cara, no primeiro turno das eleições, o endosso de 42% do eleitorado. Se o PT não tem mais o melhor projeto progressista (talvez, o do PSOL, ou parte dele, o do PSTU, ou parte dele ou, até mesmo o da Rede, ou parte dele, sejam, em teoria, melhores) foi o projeto petista aquele que conquistou, democraticamente e a despeito de todos os seus erros, o direito de continuar a realização de sua proposta.
Mal comparando, é um pouco como aconteceu no final da ditadura. Naquele momento, a grande perspectiva de avanço social estava com o antigo MDB. O dilema era permanecer na sociedade autoritária, retroceder, ou avançar em direção à democracia possível.
O PT, ali, era “radical”. Queria mais. Mais que democracia, queria o que, em parte, só hoje pode realizar.
Mal ou bem, acho que bem, o tempo reconquista da democracia pertencia ao MDB. Analogamente, hoje é o tempo em que o PT representa a alternativa viável, o PT é, em 2014, o que o MDB era na década de 70 e 80. Hoje, o antagonista do PT é PSDB, eles, os tucanos, com seu projeto de sociedade neoliberal, que já mostrou o que faz e que não têm pudor em dizer que pretendem retomar, são o que a ditadura, a Arena e o PDS de então representavam.
Talvez, chegue o tempo em que o PT fique para trás, não traga mais, não represente mais o espírito do tempo, digamos assim. Só que esse tempo não é agora, não é 2014.
Por tudo isso, eu escrevo e defendo:
Em 26 de outubro, reeleja o presente e mantenha a fertilidade do futuro.
Vote PT, DILMA 13.
Nenhum comentário:
Postar um comentário