Metafísica de um verso de Fernando Pessoa
O recente vigor adquirido pela ideia
de proteção aos patrimônios históricos não é apenas o resultado
do amadurecimento de nossa consciência sobre a importância do
passado, de alguma reverência ao mesmo tempo humanista e respeitosa,
como se só na mentalidade moderna essa necessidade tivesse se
tornado compreensível.
O que nela é contemporâneo, o que
ela reflete melhor, é outra coisa, a saber: a súbita constatação
de que nossa capacidade autodestrutiva acumulada expõe-nos, pela
primeira vez, ao risco real da aniquilação de tudo o que agora
existe ou até hoje persistiu. Dela, aduzimos que tal risco precisa
ser refreado, sob a pena da sucumbência de todas as referências
históricas e morais que até então nos permitiram justificar, ou
acreditar que está justificada, a nossa existência.
Sabemos, jamais houve prova
irrefutável que confira razão à nossa existência. Porém,
adotando uma atitude moral diametralmente oposta, afastamos o vácuo
de sentido, substituindo-o pelo vazio existencial, que tentamos
sempre preencher. Fundado o mundo à nossa própria imagem e
semelhança, percebemos que o sentido de existir só persiste naquilo
que fazemos, que é contingente, autorreferente e que só se realiza
na perpetuidade. Esta, por sua vez, realiza o nosso desejo de
preservação na concretude táctil e simbólica dos diferentes
patrimônios históricos.
E é por isso que as ideias de
inovação incessante e da destruição criadora são tão
temerárias. Porque, na forma atual, só aparentemente são
"criadoras". Animadas pela ambição de produzir
incessantemente novos-sem-história, devires ex nihil, não
passam, na verdade, de porções da aniquilação total travestidas
em novidades sedutoras.
O devir ex nihil é o que nega
Fernando Pessoa no verso “não sou nada, não posso querer ser
nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo".
Embora não sejamos nada, não devemos nos permitir querer sê-lo,
partir só do nada ou recomeçar eternamente dele. Não sou, mas não
posso querer sê-lo. E é a história, aquela que cada um de
nós herda e lega, a prova irrefutável de que o homem nunca quis ser
nada. Cada geração entrega à próxima o sentido da existência;
deixar o nada como herança é a morte em vida. Por isto,
conservamos.
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