quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Metafísica de um verso de Fernando Pessoa


Metafísica de um verso de Fernando Pessoa

O recente vigor adquirido pela ideia de proteção aos patrimônios históricos não é apenas o resultado do amadurecimento de nossa consciência sobre a importância do passado, de alguma reverência ao mesmo tempo humanista e respeitosa, como se só na mentalidade moderna essa necessidade tivesse se tornado compreensível.

O que nela é contemporâneo, o que ela reflete melhor, é outra coisa, a saber: a súbita constatação de que nossa capacidade autodestrutiva acumulada expõe-nos, pela primeira vez, ao risco real da aniquilação de tudo o que agora existe ou até hoje persistiu. Dela, aduzimos que tal risco precisa ser refreado, sob a pena da sucumbência de todas as referências históricas e morais que até então nos permitiram justificar, ou acreditar que está justificada, a nossa existência.

Sabemos, jamais houve prova irrefutável que confira razão à nossa existência. Porém, adotando uma atitude moral diametralmente oposta, afastamos o vácuo de sentido, substituindo-o pelo vazio existencial, que tentamos sempre preencher. Fundado o mundo à nossa própria imagem e semelhança, percebemos que o sentido de existir só persiste naquilo que fazemos, que é contingente, autorreferente e que só se realiza na perpetuidade. Esta, por sua vez, realiza o nosso desejo de preservação na concretude táctil e simbólica dos diferentes patrimônios históricos.

E é por isso que as ideias de inovação incessante e da destruição criadora são tão temerárias. Porque, na forma atual, só aparentemente são "criadoras". Animadas pela ambição de produzir incessantemente novos-sem-história, devires ex nihil, não passam, na verdade, de porções da aniquilação total travestidas em novidades sedutoras.

O devir ex nihil é o que nega Fernando Pessoa no verso “não sou nada, não posso querer ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Embora não sejamos nada, não devemos nos permitir querer sê-lo, partir só do nada ou recomeçar eternamente dele. Não sou, mas não posso querer sê-lo. E é a história, aquela que cada um de nós herda e lega, a prova irrefutável de que o homem nunca quis ser nada. Cada geração entrega à próxima o sentido da existência; deixar o nada como herança é a morte em vida. Por isto, conservamos.

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